terça-feira, 28 de julho de 2020

OS ERROS E CABEÇADAS NO PODER!

Se utilizas o inimigo para derrotar o... Sun Tzu


Os argentinos fizeram essa travessia torpe nos anos 1980, quando arrumaram guerra com o Reino Unido.

A última edição da New Yorker traz uma reportagem sobre as Ilhas Falkland, que os argentinos chamam de Malvinas e que ficam a menos de 500 km do seu país.

O Reino Unido havia ocupado o arquipélago no Atlântico Sul há séculos, mas nos anos 1970 já não sabia o que fazer com aquilo.

As ilhas já não tinham grande utilidade geopolítica. Utilidade econômica nunca tiveram. Havia 1.800 pessoas lá, quase todos há muitas gerações. Feito uma casa no interior que um dia pareceu uma boa ideia, agora esse negócio só dava prejuízo.

O que a New Yorker descobriu: antes da guerra, os britânicos queriam entregar as ilhas para a Argentina.

Nos anos 70, tornou-se óbvio para os moradores que o Reino Unido os considerava um problema. Há anos o governo britânico havia buscado aproximar as ilhas da Argentina, de modo que os produtos e serviços necessários viessem de lá, e não da distante Inglaterra. 

O governo militar da Argentina vinha se tornando mais belicoso em termos de soberania, e a última coisa que os britânicos queriam era uma disputa internacional sobre algumas rochas distantes das quais ninguém havia ouvido falar. 

Para os moradores, era claro que, em algum momento, o Reino Unido ia simplesmente entregá-los à Argentina.

Em 1980, um alto funcionário do ministério das Relações Exteriores visitou a ilha e propôs explicitamente a uma audiência apreensiva que as Falklands fossem entregues à Argentina em um acordo de longo prazo, semelhante ao que posteriormente foi feito para entregar Hong Kong para a China.

Pouco tempo depois, a Câmara dos Lordes em Londres votou por não conceder a cidadania britânica aos moradores das Falklands.

Alguns moradores com economias emigraram para a Nova Zelândia, mas muitos não tinham dinheiro e moravam nas ilhas há cinco gerações. O que eles poderiam fazer?

Obviamente os locais não queriam de forma alguma virar argentinos. Preferiam ser britânicos. Acho que aqui é desnecessário dar maiores explicações.

As ilhas eram muito pobres. O solo não servia para plantar. A única atividade relevante era a criação de ovelhas meio amadoramente.

Não havia estradas no campo, então as pessoas andavam a cavalo. Os poucos jipes viviam atolados no solo úmido. O nevoeiro era constante, então as pessoas aprendiam a viajar olhando para o chão. Qualquer viagem demorava muitas horas. Se alguém ficasse doente, levaria dias entre alguém ir arranjar um médico e ele chegar. Nunca se sabia se alguma visita estava chegando: não havia telefones no campo, e a correspondência chegava uma vez por mês.

Até que, em 1982, os argentinos invadiram as Falklands.

O ato imbecil deixou Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica, sem opção. Não se poderia sinalizar que uma agressão ao Reino Unido ficaria por isso mesmo. Uma coisa era os britânicos entregarem as ilhas aos argentinos por vontade própria. Outra era tê-las tomadas à força e não reagir. Que mensagem passariam ao mundo? Pior: o que os eleitores diriam?

Obviamente, o poderio militar argentino não resistiu ao primeiro bocejo das forças britânicas, e logo os hermanos foram tocados de lá. Os locais contribuíram ativamente com informações para os britânicos.

(Quando viram que iam perder, os argentinos foram bem babacas: ao retomar suas casas, muitos locais encontraram destruição, bens roubados e fezes dentro das gavetas.)

Depois da guerra, tudo mudou. A condição das ilhas atraiu atenção internacional, e o Reino Unido alocou mais dinheiro para as ilhas do que nunca. Os locais ganharam a cidadania britânica completa. 

Mas o maior ponto de virada foi a decisão britânica de permitir às Falklands reivindicar direitos de pesca nas águas por 180 km a partir da costa, o que os britânicos não tinham aceitado antes porque não queriam antagonizar a Argentina. As vendas de licenças de pesca para frotas estrangeiras multiplicaram em três vezes o produto interno das ilhas da noite para o dia.

Agora tudo era possível. Desde o século 19 os moradores queriam construir uma piscina, porque as águas do mar eram frias demais, então por falta de ter onde treinar ninguém sabia nadar. Assim, se um barco virava, as pessoas se afogavam. Agora haveria uma piscina. E uma escola secundária. E estradas. E telefones. E um hospital.

Os locais não apenas agora podiam se sentir verdadeiros peixes em águas aquecidas e devidamente cloradas quanto poderiam ambicionar a intelectualidade. O governo britânico resolveu pagar universidade na Inglaterra para os jovens. Com moradia, alimentação e passagens de ida e volta nas férias. 

A renda per capita subiu para o nível da Noruega. Para ajudar, no século 21 descobriu-se que há petróleo no mar da região, ainda a ser explorado. As ilhas viraram ponto turístico, porque cruzeiros para a Antártida viraram moda e eles param por ali. Um par de helicópteros argentinos derrubados faz a alegria dos visitantes. Há uma estátua da Margaret Thatcher e, talvez mais entusiasmante, quem quiser pode ir ver os pinguins.

Os argentinos choram por causa dessas ilhas até hoje, humilhados no seu quintal. Os britânicos mal lembram do episódio e, se você for ao Imperial War Museum de Londres, a guerra das Falklands é uma nota de rodapé.

Por que os argentinos foram cometer essa estupidez? Com a ditadura militar do país em declínio, era preciso encontrar um inimigo nacional para tirar a atenção da opinião pública do caos e da violência criados pelos fardados.

O que os gênios não pensaram é que, quando eles perdessem a guerra, a percepção coletiva de que eram completos ineptos ia apenas crescer.

Caramba, eles iam ficar com as ilhas. Os britânicos queriam se livrar daquilo. Era só esperar. Agora nunca mais.

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